Para Sempre Alice

Relembro aqui quando tive o prazer de assistir ao filme "Para Sempre Alice" ("Still Alice"). Nele, uma mulher de quarenta anos descobre sofrer de um mal incurável, a Doença de Alzheimer. O sofrimento retratado no filme, a partir de então, é intenso. Aos poucos, acompanhamos o processo de deterioração das funções cognitivas da mente característico dessa triste condição. Durante todo o filme, sofremos por antecipação, antevendo o declínio de uma mente brilhante. Dói alguma coisa dentro. O quê?

Quando eu ainda estava no primeiro ano de Residência Médica em Psiquiatria, me perguntaram qual era a técnica que nós, psiquiatras, usávamos para comunicar más notícias. Na ocasião, eu havia sido chamado para auxiliar na difícil tarefa de informar a uma senhora idosa que o marido dela havia falecido em um acidente automobilístico. Na ocasião, referi que era necessário ter calma, tranquilidade, oferecer apoio, mas que não havia uma “fórmula mágica” para realizar essa tarefa. E assim foi feito. Até hoje me indago como foi que aquela mulher recebeu tão tranquilamente aquela notícia, de forma tão serena...


Por que a maioria de nós sofre tanto perante uma má notícia? Por que relutamos em acreditar, negamos, por que reagimos com raiva ou extremo desânimo, perante um diagnóstico como o Alzheimer? Ou um câncer? Ou a morte de um ente querido, a perda de um amor antigo?


Em grande parte, porque tendemos a negar o lado triste da vida, alimentando expectativas de uma vida sem perdas. Expectativas de que apenas coisas boas vão acontecer, de que estamos imunes a coisas ruins, de que de alguma forma seremos capazes de viver para sempre, assim como nossos entes queridos. Expectativas que, confrontadas com o mundo real, tornam-se mágicas, funcionando como um pé sobre o acelerador, impulsionando nossa vida na direção dos contos de fadas. Até que a realidade chega como um muro, estraçalhando nossos ideais de vida mais profundos.


Não posso deixar de supor que a raiz do sofrimento nesses casos, tal qual já discutido para o sofrimento amoroso, esteja no nosso narcisismo, em nossos ideias de perfeição, vida eterna e controle total. E suponho isso dada a dificuldade generalizada de aceitarmos com tranquilidade que envelhecemos, que os cabelos caem, que as rugas aparecem, que nossos entes mais experientes padecem, que adquirimos eventualmente alguma doença sem cura, seja uma pressão alta, seja o diabetes, seja uma doença que corrompa nossas memórias.


Nós criamos planos, traçamos rotas para nossos futuros, e como se tivéssemos o controle total sobre tudo, choramos e esperneamos quando as coisas eventualmente não saem tão perfeitamente quanto planejamos. Essa atitude não parece tipicamente infantil? Quando surgem, as más notícias desestabilizam essas nossas estruturas mais primordiais de funcionamento e levam ao sofrimento.





Não quero, com essas palavras, demonstrar que sofrer perante essas situações seja anormal. Muito pelo contrário, é inerente à condição humana e pode ser necessário, inclusive, para o desenvolvimento de ferramentas psicológicas mais maduras. A resposta emocional da família e da própria protagonista no filme me parece um exemplo fidedigno do que é a vida com verdade. No entanto, enquanto a maioria de nós sofrerá por um tempo limitado, retomando o equilíbrio emocional e voltando a viver suas vidas sob as novas regras, outras entrarão em profunda depressão.


Situação semelhante e com tamanha intensidade já tive oportunidade de descrever no caso específico das perdas amorosas, caracterizadas muito frequentemente por relações narcísicas com o objeto “amado”. Nesses casos, o sofrimento intenso se justifica porque o indivíduo não amava o outro, mas amava a própria imagem refletida no outro. Assim, quando a pessoa amada desaparece por qualquer razão, o indivíduo não sofre apenas a perda do outro, mas a perda de uma parte de si mesmo.


Não ocorreria processo semelhante perante qualquer má notícia, sendo necessária a existência de uma relação objetal narcísica, que é abruptamente rompida, para fazer surgir o sofrimento?


Relembro mais uma vez a face daquela senhora ao ouvir os filhos lhe contarem que o seu marido havia falecido. Havia tanta paz ali. Havia também conhecimento. Havia a sensibilidade e a experiência de que as coisas são finitas, de que uma hora todos vamos. Havia a capacidade de se perdoar e aceitar que todos cometemos falhas, que não controlamos as coisas ao nosso redor e que é possível sofrer eventualmente, mas que sofrer para sempre não é viver. Havia ali uma fortaleza de flores determinando a resiliência daquela mulher. Ou apenas a projeção de um ideal de pessoa, metáforas de um sonho meu.


Parece-me incrível, de qualquer forma, como uma má notícia pode levar a alterações importantes na forma como uma pessoa experimenta sua vida. No filme, isso fica evidente quando a protagonista, vítima de esquecimentos de acontecimentos recentes, passa a viver a preciosidade de cada momento, visto que não poderia contar com a lembrança do ocorrido dali há alguns minutos.


Termino com alguns singelos desejos: que não tenhamos que receber uma má notícia para mudar nossa forma de enxergar as coisas. Desejo que, diferente de Alice, não tenhamos que receber o diagnóstico de uma doença da memória para que possamos dar valor a cada segundo de nossas vidas. Mas que, à semelhança da experiente senhora que um dia atendi, possamos aceitar com tranquilidade as verdades da vida, quando estas nos baterem invariavelmente à porta.

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