Mitos e Verdades

Embora os mitos estejam se desfazendo, ainda são bastante comuns alguns questionamentos perante a necessidade do uso de medicações em psiquiatria. Conversando com meus pacientes, os medos são parecidos, envolvendo mitos antigos que já há um bom tempo não correspondem à realidade.


Algumas dúvidas que costumo ouvir com frequência:

- Mas esse remédio não vai me deixar dopado?

- Remédio psiquiátrico não é para louco?

- Esse remédio não vai me deixar duro que nem um robô?

- Os efeitos colaterais não vão ser intoleráveis?

- Isso não vai me viciar?

- Algum dia vou poder deixar de usar essa medicação?



Dados tais receios, não é infrequente que pessoas, que poderiam muito se beneficiar de um tratamento psiquiátrico, deixem de procurar ajuda. Minha função, então, é esclarecer quanto à evolução dos tratamentos médicos atuais e apresentar a realidade contemporânea dos remédios psicotrópicos (aqueles que atuam nos complexos circuitos cerebrais da mente).


Essas perguntas não surgiram do nada, mas de alguns aspectos históricos da psiquiatria como especialidade médica e do desenvolvimento de suas medicações. De fato, os primeiros antipsicóticos (como a clorpromazina) e os mais antigos antidepressivos (especialmente os tricíclicos) podem causar efeitos colaterais proeminentes, e em altas doses podem sim levar à sedação (sonolência excessiva). A clorpromazina, especificamente, em doses elevadas, eventualmente pode "deixar o corpo duro, como o de um robô". Além disso, o surgimento dos benzodiazepínicos (como o diazepam e o clonazepam) associou o risco de desenvolvimento de dependência à lista de possíveis efeitos colaterais. Todos esses aspectos passados se complementam para justificar os medos e receios atuais.


O que é importante de ser explicado, no entanto, é que a psiquiatria não parou por aí. Medicações com mecanismos cada vez mais modernos foram e continuam sendo lançadas, em geral com melhor perfil de efeitos colaterais, condição que tem revolucionado o tratamento da maioria das enfermidades mentais. A própria maneira de se utilizarem as medicações mais antigas também se aperfeiçoou, sendo hoje indicadas apenas quando seus benefícios superam claramente seus riscos, transformando antigos efeitos colaterais em efeitos desejados para o tratamento das mais variadas patologias.


O receio, portanto, se justifica. O que não se justifica é que essas dúvidas não sejam equacionadas e demonstrações da realidade não sejam oferecidas. O indivíduo que sofre de uma doença da mente tem o direito de receber essas e outras tantas explicações referentes às medicações de que fará uso. Ao obter as respostas para suas dúvidas, reduzem-se as ansiedades, aumenta-se a confiança no tratamento, as chances de sucesso da terapêutica se ampliam.


As medicações psiquiátricas costumam levar um tempinho para surtirem efeito (em geral de duas a quatro semanas). Além disso, nos primeiros dias de uso, podem ocorrer alguns efeitos colaterais de adaptação ao remédio, especialmente sintomas gastrointestinais leves. A maioria desses efeitos são temporários e desaparecem com o uso continuado, em geral bem tolerado. Grande parte dos remédios psicotrópicos prescritos na atualidade não estão associados com dependência (não são "tarja preta") e o tratamento possui um momento para começar e para terminar em boa parte dos casos (em geral a indicação do medicamento se faz por seis meses a um ano).


Procure seu médico. Leve todas as suas dúvidas e as esclareça. Isso só tem a favorecer a terapia prescrita. A informação é um importante fator dentre aqueles que favorecem a terapêutica em saúde mental.

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