Carta para quem deseja ser o melhor

Você já deve ter entrado em contato com algum livro de autoajuda que prometia transformá-lo no melhor profissional da empresa em que trabalha, em um empresário dono de um império de franquias, em um investidor bilionário ou mesmo em um líder perfeitamente equilibrado e infalível. Se ainda não lhe deram um desses livros ou se você nunca se deixou levar por suas capas tentadoras que garantem a receita mágica para a “felicidade, a riqueza e o sucesso”, certamente você utiliza alguma rede social que, de tempos em tempos, lhe sugere uma palestra motivacional em vídeo, uma série sobre pessoas milionárias e suas histórias emocionantes de “sofrimento, persistência e superação”, ou mesmo postagens de pessoas que teriam chegado “lá” – aquele paraíso de felicidade constante, muita saúde, muito dinheiro, sucesso e poder. Você pega seu celular para se distrair e é inundado por indivíduos com corpos musculosos e sorrisos tatuados nas faces harmonizadas, pessoas que acabaram de ser promovidas ao cargo dos sonhos, mas que parecem viver em férias eternas, dirigindo carros que custam mais do que a casa dos seus pais e brindando taças de um espumante que você poderia comprar com um ou dois dos seus salários.


Ao se expor a tudo isso, você, que estava tranquilo e satisfeito em sua kitnet alugada assistindo àquela série de super-heróis, de repente se dá conta de que sua vida está péssima e que tudo o que você vem fazendo está aquém do esperado. De súbito, você percebe que tem um grande potencial e que basta um pouco mais de vontade, planejamento e persistência para que em dez ou vinte anos você se transforme em presidente de uma corporação, controlando um império de lojas, investindo dólares na bolsa, viajando o mundo de executiva e morando em uma cobertura duplex. Você estabelece um novo objetivo para a sua vida, que demandará anos e anos de foco, tenacidade e trabalho, e vive as próximas (e últimas) décadas de sua história na esperança de um dia concretizá-lo.


Boa sorte nessa jornada! De fato, há uma probabilidade de que você conquiste seus objetivos ambiciosos e eu torço muito por isso. Porém, antes que mergulhe de cabeça nessa aventura, gostaria de fazer uma pequena ressalva: maior é a probabilidade de que você viva uma existência inteira de privações, frustrações e sofrimentos e, ao final, ainda fracasse. Desculpe a quebra de expectativas, mas saiba que eu lhe escrevo com a melhor das intenções.


Fique tranquilo, no entanto, porque não foi só você que estabeleceu um padrão (bem) mais ambicioso após ser exposto a essas mídias; muitas pessoas fizeram e continuam a fazer o mesmo, caracterizando algo que poderíamos chamar de “delírio coletivo”. E refiro-me a um delírio porque se analisarmos com cuidado algumas das premissas nas quais se baseiam esses planos ambiciosos de vida, identificaremos que elas perdem contato com a realidade. Ademais, a despeito disso, as pessoas acreditam nelas como verdades absolutas.





“Se ela conseguiu, eu consigo”. Uma das premissas mais surreais e perigosas, caracteriza um tipo de raciocínio extremamente simplista, embora sedutor, e por isso tão vendável. Você vê o vídeo da história de sucesso daquela pessoa que saiu de um ambiente de pobreza, abriu um pequeno negócio com a economia dos últimos cinco anos mais um empréstimo do banco, batalhou por dez anos, mas não desistiu, apesar de todas as adversidades, até que vinte e cinco anos mais tarde, tornou-se dona de um império de mais de cem lojas, com uma fortuna bilionária. O vídeo termina, então, com a mensagem de que, “se ela conseguiu, você também conseguirá, basta se esforçar mais”. Ora, quantas pessoas a cada cem mil pequenas empreendedoras se tornam milionárias? Algumas, provavelmente. Mas a grande maioria se mantém trabalhando com ganhos mais ou menos constantes, a despeito do empenho, algumas crescendo um pouco mais e várias, inclusive, fechando as portas. Portanto, “se ela conseguiu, eu posso conseguir”, mas a probabilidade de que isso ocorra é muito, muito pequena. Sendo assim, vale a pena eu investir a minha existência nessa aventura gananciosa?


“Mas que vida incrível!”. Desejar se tornar uma pessoa milionária com um altíssimo cargo em uma empresa multinacional depende, fundamentalmente, das nossas expectativas em relação aos benefícios que essa nova posição nos trará. O problema, nesse caso, está no fato de que a imagem que nos é vendida dessas posições tende, quase sempre, a supervalorizar os aspectos positivos de possuir muito dinheiro, poder e sucesso, desprezando ou mesmo negando os aspectos negativos que certamente estão associados ao fato de ter muito dinheiro, muito poder e muito sucesso. Dessa forma, objetivos de vida desse tipo frequentemente se embasam em aspectos ilusórios, materializados em fotos retocadas em contextos artificiais naquela rede social à qual você se expõe. Por exemplo, um importante aspecto negativo que invariavelmente surge e se intensifica conforme você adquire e aumenta as suas posses, é a ansiedade de perder tudo o que conquistou. E, caso perca, o risco de depressão por ter perdido tudo.


“Eu preciso disso!”. Por fim, ao decidir que precisava de um apartamento duplex e uma melhor posição na empresa, provavelmente você sofreu uma grande influência externa e mercadológica, a mesma que se beneficia quando você vive menos seus prazeres mais internos e trabalha mais pelos objetivos dos outros. É necessário se atentar ao fato de que, para o mercado, importa pouco se, ao final da sua vida, você atingiu seus objetivos ambiciosos, desde que tenha trabalhado o máximo possível e produzido na maior das suas capacidades, e mesmo que isso tenha lhe custado a pessoa amada, a convivência com os filhos, aquela série de super-heróis em família.


Você respira fundo. Certo, isso pode até fazer algum sentido, mas o que precisamos fazer então? Devemos nos contentar com o apartamento alugado e a posição atual, vivendo eternamente no conformismo, sem qualquer tipo de ambição?


Ora, o problema não está no desejo de melhorar. O risco está na ganância de querer ser o melhor. E há diferenças fundamentais entre esses dois objetivos. Uma coisa é eu querer ser e me esforçar para me tornar uma pessoa melhor, mais eficiente, mais inteligente, mais benevolente, mais rica, mais amável, mais confiável, mais agradável, dia após dia, tomando como referencial o que eu fui no dia anterior. Nesse caso, a distância entre o que eu desejo me tornar e o que eu sou é pequena e factível de ser percorrida em curto tempo. Alcançar esse objetivo me trará uma satisfação serena e pequena, porém, caso eu não o alcance hoje, a frustração também será pequena e serena.


Outra coisa, no entanto, é eu querer ser a pessoa mais rica da minha empresa, a mais inteligente, a mais amada, a mais poderosa, a mais invejada, após um percurso que me custará dez ou vinte anos e definindo como referencial o outro. Nesse caso, a distância a ser percorrida para alcançar o meu desejo é enorme, provavelmente caracterizada por inúmeros obstáculos imprevisíveis e, eventualmente, intransponíveis. Sem contar que sempre haverá alguém melhor que a gente em inúmeras coisas, ou que em algum momento nos ultrapassará, de forma que desejar ser melhor que o outro é como correr atrás de uma cenoura pendurada em nossa frente por um pauzinho preso às nossas costas. Espero ter sido claro com essa última comparação.


Um dos maiores desafios de nossas vidas é encontrar algo que dê sentido às nossas existências. A despeito da finitude do caminho, no entanto, é importante parar para refletir com calma sobre o percurso antes de sair correndo atrás de algo, especialmente se o que nos motiva a fazer determinada escolha é fundamentalmente influenciado por um desejo que nem é, genuinamente, nosso. Ouso afirmar que escolhas muito gananciosas de longo prazo tendem a cursar com maior frustração e ampliação de sofrimento, enquanto pequenas escolhas menos ambiciosas e de curto prazo, não só tendem a causar menos frustração, como podem, no longo prazo, nos conduzir à afamada linha de chegada com mais felicidade e satisfação.

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