ASMR - terapia inovadora para a insônia?

Os vídeos de ASMR (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano) têm se tornado cada vez mais populares na internet. Prometem reduzir a ansiedade, causar relaxamento, induzir o sono e até tratar depressão e dor crônica.


Vídeos de ASMR costumam ser peculiares: neles pessoas falam baixinho, sussurrado, bem lentamente, ou então vemos e ouvimos as mãos de alguém amassando uma geleia (slime), fazendo as próprias unhas, interpretando alguém que nos corta os cabelos. A ideia é que certos sons e alguns estímulos visuais podem nos causar sensações prazerosas e relaxantes. O "whispering", ou sussurrar, por exemplo, seria um possível gatilho, dentre tantos, para desencadear essas sensações. Se há algo de científico nisso? Até o momento o assunto foi muito pouco estudado, mas os artigos publicados até apresentam resultados promissores e estimulantes.


As medicações que agem no cérebro podem fazer muito pelas pessoas que sofrem de transtornos mentais. Mas há muitos transtornos mentais que melhoram nada ou muito pouco com medicamentos. Eventualmente, até pioram, porquanto não faltam efeitos colaterais. Novos fármacos promissores têm surgido, mas ainda estamos muito longe de obter psicotrópicos ideais em Psiquiatria. E esse é um dos motivos de nos interessarmos por terapias outras que não a medicamentosa no tratamento dos problemas da mente.


A mais promissora delas talvez seja o mindfulness. Na verdade, há quem considere o ASMR como uma forma de meditação mindfulness. De fato, parar por alguns minutos de nossa vida para prestar atenção única e exclusivamente no que acontece ao nosso redor, seja no som da tesoura que corta nossos cabelos, seja vendo a cena de uma pessoa se maquiando, constituem momentos de foco no presente, aparentemente resultando em relaxamento e redução do estresse.


O ASMR é uma resposta sensorial caracterizada por um estado de percepção em que estímulos específicos (chamados de "gatilhos") causam relaxamento e cosquinhas prazerosas, inicialmente na cabeça e no pescoço, mas que podem se espalhar por outras regiões do corpo. O efeito costuma vir em ondas, não é constante, mas dinâmico. Os estímulos também podem ser das mais variadas naturezas. Nos vídeos, são normalmente auditivos e visuais, mas é possível também sentir ASMR através do toque e do olfato.


Algo importante que os estudos indicam é que parece claro que os efeitos variam de pessoa pra pessoa, com alguns indivíduos podendo sentir absolutamente nada ou mesmo algo desagradável ao ouvir esses sons, o que se denomina "misofonia".





A ideia do ASMR começou a se espalhar em 2010 em alguns fóruns na internet e rapidamente atingiu grandes proporções. É fácil nos depararmos com algum vídeo de ASMR sugerido pelo YouTube. Aliás, alguns dos youtubers mais famosos da atualidade são aqueles que fazem vídeos específicos de ASMR, conquistando milhões de visualizações e seguidores. Independentemente de qualquer evidência científica, esse fato pode indicar que haveria algo de eficaz nessa técnica.


Os estudos apontam os gatilhos que foram referidos pelos usuários de ASMR, mais frequentemente associados à sensação de relaxamento e às tais cosquinhas prazerosas. A maioria dos artigos caracteriza de alguma forma os gatilhos mais frequentemente referidos como satisfatórios, e estes são alguns deles, segundo ordem de frequência, conforme o estudo da Universidade de Winnipeg, no Canadá:


1. Whispering (sussurros);

2. Roleplay (interpretação) de corte de cabelos;

3. Tapping (batuque com os dedos);

4. Scratching (arranhar alguma superfície, em geral rugosa, com as unhas);

5. Ver alguém tocar cabelo do outro;

6. Ver alguém desenhar;

7. Ver alguém pintar;

8. Ver alguém aplicar maquiagem ou pintar as unhas de outra pessoa;

9. Ver alguém acariciar o próprio cabelo;

10. Ver alguém abrir um pacote ou embalagem;

11. Ver alguém aplicar maquiagem ou fazer as unhas de si mesmo;

12. Roleplay (interpretação) de consulta com um dentista;

13. Sons de mastigação;

14. Ver alguém cozinhando.


Após uma pesquisa nas principais databases de estudos científicos, encontramos poucos artigos. A maioria deles foi realizada através de questionários na internet com usuários de ASMR, obtendo-se algumas informações sobre as características mais frequentes das pessoas que sentem relaxamento com esses estímulos.


O estudo da Universidade de Winnipeg, de 2017, realizado com mais de 500 pessoas, mostrou que em geral os indivíduos que sentem ASMR são mais “abertos a novas experiências” do que os que não sentem. No entanto, tenderiam a apresentar mais sintomas depressivos e ansiosos do que os que não sentem. Sentiriam também mais frequentemente ASMR as mulheres do que os homens.


Um outro estudo, de 2015, da Universidade de Swansea, no Reino Unido, indicou que sussurros, vídeos que exigem atenção em objetos próximos e com movimentos lentos causaram ASMR em metade dos 450 voluntários. Esse estudo demonstrou que 98% das pessoas procuravam os vídeos de ASMR para relaxamento, 82% também procuravam os vídeos com o objetivo de dormir, 70% para lidar com estresse e 5% para estímulo sexual, embora 84% não concordaram com a ideia de que os vídeos levem a qualquer estimulação de natureza sexual. Quanto ao horário de utilização, 81% assistiam aos vídeos à noite, 4% ao acordar e 30% também nas horas livres.


O mais incrível é que o estudo encontrou indícios de que os vídeos possam auxiliar a reduzir os sintomas depressivos mesmo após algumas horas depois de assistidos, além de reduzir também a intensidade de dores crônicas.


Por fim, a Universidade de Sheffield, junto da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, encontraram, avaliando voluntários enquanto eles assistiam a vídeos de ASMR, que esses vídeos tendem a causar uma redução da frequência cardíaca em comparação com outros filmes, além de aumentar a condutância da pele, o que representa certo grau de estimulação. Esse estudo também não encontrou relação entre os gatilhos e estímulos de origem sexual.


Como apontado, as evidências científicas atualmente disponíveis sobre ASMR ainda não muito escassas e restritas a poucos centros de estudo. Ainda há um longo caminho pela frente para que o ASMR seja indicado, baseado em evidências, no tratamento de algum transtorno mental específico. O que foi publicado até o momento, entretanto, é bastante promissor nesse sentido.


Na dúvida, e perante uma noite difícil, não custa fazer um teste e assistir a um vídeo que promete relaxar, induzir o sono, reduzir o estresse e, o melhor, fazer tudo isso sem qualquer efeito colateral.

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