As Vicissitudes da Paixão

vi.cis.si.tu.de, s.f.: Inconstância, sequência de alterações ou mudança.


Guimarães Rosa, no trecho de "Grande Sertão: Veredas", transcrito abaixo, e em toda a sua obra, descreve, com rara maestria, os sentimentos de um ser apaixonado. E o faz do princípio ao fim, da idealização inicial à frustração final às quais esse ser é submetido ao se deparar com a realidade, ilustrando de forma ímpar o que é certo: todas as paixões terão um fim. Viver a paixão esperando uma história com final do tipo "felizes para sempre" é negar a realidade e, a partir dessa negação, gerar a semente do sofrimento passional.


“Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida. Tinha notado minha ideia de fugir, tinha me rastreado, me encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha uma velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: – Que você em sua vida toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele.”

Grande Sertão: Veredas; Guimarães Rosa.





Dois desconhecidos se trombam, caem os livros das mãos de um deles e quando os olhares de ambos se encontram, a mágica acontece. Como explicar que, ao nos depararmos com um outro ser na rua, que nunca antes vimos e dele objetivamente nada sabemos, sintamos aquele frio na barriga, aquela sensação de que encontramos o príncipe ou a princesa encantada que desde sempre almejamos?


Platão, em “O Banquete”, nos dá uma ilustração mítica deste ponto em especial. No passado, havia seres de duas cabeças, quatro braços, quatro pernas, funcionantes como um só, seres que se bastavam em perfeita harmonia. Tentaram, então, certa vez, contra os Deuses e, para castigá-los, estes os dividiram pela metade, formando-se duas partes incompletas que estariam destinadas, eternamente, a procurar pela parte faltante. Caso pensassem encontrá-la, na tentativa de se unirem novamente em um só corpo, desfaleciam em um abraço que só terminava na morte de um ou de outro.


“Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro.

E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher – o que agora chamamos mulher — quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo.”

O Banquete; Platão.


Os dois desconhecidos, agora enamorados, desenvolvem uma perigosa crença, muito comum entre os seres apaixonados: a de que, na falta do alvo atual de suas paixões, nunca mais encontrarão outra pessoa que os façam se sentir daquela maneira. E passam a agir como se o ser que desejam fosse único e de um valor sobre-humano; como se nada mais valesse na vida do que estar com ele; como se, uma vez encontrado o príncipe ou a princesa encantada, sua perda resultasse na solidão eterna. Acreditar nisso tudo e agir dessa forma, evidentemente, têm o potencial de causar grande sofrimento, pois quando a realidade bate na porta e a perda finalmente acontece, resta um vazio que não se preenche.


Os conhecimentos sobre a psicologia humana acumulados até o momento podem nos fornecer algumas pistas para compreendermos as raízes do desejo humano e as razões do sofrimento que o acompanha.


Parte desse sofrimento pode ser explicado pela constituição de uma falsa díade, uma ilusória dupla. Segundo essa teoria, o ser apaixonado se torna dependente não da outra pessoa, mas de uma parte dele mesmo, das suas primordiais e idealizadas vontades, das suas histórias infantis e encantadas, as quais ele pensa, quase que magicamente, ter transformado em realidade.


Ao nos deparamos com alguém que nunca antes vimos e imediatamente por ele já nos sentirmos atraídos, mesmo sem nada saber sobre o mesmo, absolutamente nada, o que estamos realmente fazendo é jogando, arremessando ou, em termos mais técnicos, “projetando” os nossos ideais de completude nesse indivíduo. Não percebemos esse movimento inconsciente e acreditamos que nos encontramos perante o ser primordialmente desejado, a metade que nos faltava. Mas o que ocorre, na verdade, é que acabamos nos apaixonando por tudo isso que gostaríamos de encontrar no outro e apenas acreditamos ilusoriamente que o outro tenha.


Acreditar que isso esteja realmente acontecendo é maravilhoso e explica, pelo menos parcialmente, o porquê da sensação tão prazerosa vinculada. É como sonhar acordado! No entanto, dificilmente essas expectativas se confirmarão, dado que se baseiam em ideais dissociados da realidade. Isso explica porque é tão comum que casais que se diziam tão apaixonados em um primeiro momento, depois de um tempo de convívio, acabem percebendo que possuíam falsas expectativas em relação ao outro, resultando em frustrações que se expressam através de pensamentos como: “eu estava cego" ou “ele não é nada do que eu pensava”.


Pois não era, e não deveria ser. É creditada a Wilfred Bion, grande psicanalista, a seguinte sentença:


“Amor e verdade são indissociáveis. Amor sem verdade é paixão. Verdade sem amor é crueldade”.


Se “amamos” sem verdade (e o fazemos muito frequentemente), somos levados a acreditar que o outro não possui defeitos, que durará para sempre, que realizará todas as nossas vontades, que preencherá todos os nossos vazios, que nunca irá nos trair, que jamais adoecerá, que jamais falhará, que não envelhecerá, que sempre estará lá para nos apoiar... Sem a verdade, corremos o risco de pensar viver em um conto de fadas, aquele das princesas e príncipes encantados que vivem felizes "para sempre" em castelos mágicos.


No entanto, mais cedo ou mais tarde (mas sempre!), quando nos deparamos com a realidade, com o fato de eventualmente não sermos correspondidos, de eventualmente sermos traídos, de não podermos contar com o ser desejado a todo momento, de perdermos essa outra pessoa para a vida (para outro!) ou para a morte, sofremos. De repente, a realidade surge como uma enorme barreira em que se chocam nossas mais intensas e profundas vontades. É quando acabamos, finalmente, chorando não a perda do outro, mas a perda de uma parte de nós mesmos.


Compreendida essa possível explicação, haveria uma forma de alterarmos esse padrão de se relacionar com o outro, fadado ao sofrimento, e passarmos a amar com mais verdade?


É frequente não conseguirmos avaliar de forma realista como agimos em relação às nossas paixões, especialmente enquanto estamos apaixonados. A ânsia por encontrar a felicidade conjugal e a ansiedade gerada pela simples possibilidade de confrontar a imagem de si mesmo na própria solidão são entraves que também tendem a nos manter em padrões de relacionamento disfuncionais. Como mudar isso?


É preciso parar, respirar fundo e, preferencialmente com algum tipo de auxílio, mergulhar em si mesmo. Nesta aventura que é o caminho do autoconhecimento, vale o auxílio de um psicoterapeuta, de um amigo, de um livro de fundamentos psicanalíticos ou mesmo de um artigo sobre astrofísica ou física das partículas (no caso de você desejar mergulhar bem, bem fundo!). Todos esses são recursos importantes que podem nos auxiliar no trabalhoso processo de desenvolver e aprimorar habilidades e ferramentas psicológicas mais maduras, a partir das quais conseguiremos estabelecer relações amorosas mais saudáveis.


Quanto há ou havia de verdade em nossas paixões? Fomos realmente capazes de enxergar o outro do relacionamento, com vontades, defeitos e qualidades próprias, ou apenas nos relacionamos com nossos próprios desejos projetados no outro?


Guimarães Rosa conseguiu captar como poucos as vicissitudes de uma paixão peculiar que se manteve em segredo até o seu fim. O sofrimento que se segue, então, perdura por meses a anos e só é de fato superado quando a personagem consegue repensar e ressignificar, ao contar para seu "doutor", em forma de extrema poesia, tudo o que lhe aconteceu.

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